Um testemunho de grande interesse para nós, parece-me.
José Mário Silva em comentário à crítica de Luís Miguel Queirós, no Ípsilon do Público.
Não dá para linkar, coloco aqui o texto integral.
Não há maior felicidade, para um autor, do que ler no jornal uma crítica intelectualmente honesta ao seu trabalho. Só posso por isso agradecer publicamente ao Luís Miguel Queirós pelo magnífico texto que dedicou, na última edição do suplemento 'ípsilon', à antologia de poesia "Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos", que eu organizei e a Companhia das Letras publicou. Acompanho o percurso do LMQ e leio os seus artigos há muitos anos, por isso sei que ele é provavelmente quem melhor conhece a poesia portuguesa, no universo exíguo das pessoas que escrevem sobre poesia na imprensa. Ao ver que se lançou à tarefa de analisar a antologia, num espaço generoso (mais de 6000 caracteres), esperei um veredicto eventualmente duro, mas construtivo. E não me desiludi. Uma a uma, apontou as fragilidades e incongruências, sem subterfúgios mas também sem crueldade. Limitou-se a escrever o que pensa sobre o livro em si, não sobre a pessoa que o organizou, e esse gesto saudável, que devia ser a regra básica do diálogo intelectual, é tão raro que merece ser elogiado.
Confesso que fiquei contente por LMQ ter gostado da minha lista de 100 poetas. Foi um dos aspectos do trabalho em que mais procurei um equilíbrio entre a objectividade da perspectiva histórica e a necessária audácia subjectiva do gosto pessoal. Já a perplexidade do crítico diante de algumas das minhas escolhas de poemas, não só a compreendo como a esperava.
Uma vez que são levantadas algumas dúvidas sobre autores ausentes, aproveito para as esclarecer aqui. A exclusão de Mário de Sá-Carneiro não está de facto suficientemente explicada, porque faltou sublinhar uma das restrições: a de escolher poetas que tivessem morrido nos últimos 100 anos. Como é evidente, foi essa a única razão para deixar de fora um poeta tão genial. E se é verdade que Alberto Caeiro morreu em 1915, sabemos bem que o verdadeiro autor dos poemas só morreu em 1935. No caso de Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge, a ausência explica-se pela recusa dos próprios, não só legítima como previsível. O mesmo aconteceu com António Franco Alexandre.
Dito isto, os reparos que mais me custaram foram os relativos às gralhas e erros de revisão. Custaram-me por serem justos. E por serem culpa minha. Devido aos meus atrasos no processo de escolha e organização, a fase final de provas do livro teve de ser acelerada. O trabalho essencial de verificação minuciosa de cada página, de cotejar verso a verso, de leitura e releitura obsessiva das referências bibliográficas, acabou sacrificado pela urgência. Disso me penitencio amargamente, até porque costumo ser obsessivo nesse labor quando trabalho semanalmente os textos dos outros. Em casa de ferreiro, espeto de pau. Mas o pau magoa (e não é pouco). A minha única esperança, neste momento, é que o livro chegue a uma segunda edição, para que o possa expurgar de todos esses defeitos que me entristecem e assombram.
José Mário Silva, 19/12/2017
Nota: o texto está publicado na página de facebook do autor. Interessante ler também comentários de escritores e outros ao post.
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
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