Por Rui Alves de Sousa
A Livraria Bulhosa de Entrecampos foi um dos espaços que marcaram o meu crescimento. Até hoje visitava-a quase diariamente, e foi graças ao seu "espólio" que descobri muitos belos romances, ensaios e BDs.
Há quase dois meses encerraram por motivos de inventário, como indicava o letreiro que colocaram à porta. Estranhei porque, como bem sabia graças à minha experiência de trabalhar numa outra livraria igualmente importante para mim, os inventários costumam ser feitos mais para o fim do ano/início do ano seguinte. Além de que, por terem forrado o vidro todo da loja, dava mais a ideia de que a mesma tinha fechado de vez. Mas não questionei mais.
Passaram-se dias e semanas. Estava a ser o inventário mais longo de sempre, pelas minhas contas.
Um dia voltei a passar por lá e o letreiro tinha desaparecido. Desde então passaram-se mais umas semanas e já não tinha dúvidas do que tinha realmente acontecido.
Hoje passei pelas Amoreiras, que tem uma outra Bulhosa, ainda em funcionamento (mas a fraca iluminação dá a ideia que também está prestes a desaparecer). Descaradamente, pedi ao funcionário que estava no balcão para confirmar as minhas suspeitas.
"Sim, infelizmente", diz ele, "é uma pena".
E com pouca vontade de continuar a falar no assunto, não acrescenta mais nada.
Acreditem em mim quando vos digo que esta não é uma tentativa de fazer aqueles posts paternalistas relacionados com coisas culturais que encerram sem aviso ou qualquer interesse geral. Posts que acabam sempre com frases do género "a culpa é vossa se a livraria fechou porque não iam lá" ou "ai a minha vida nunca será a mesma com este encerramento". Sei é que alguns dos meus amigos facebookianos também conheciam esta Bulhosa e, provavelmente, sentirão também alguma tristeza com o seu término.
Não era uma livraria espectacular, mas destacava-se por ser aquilo que um estabelecimento como esse deve ser: uma casa de cultura e diversidade, ou seja, algo mais do que um espaço de venda de livros. Foi lá que comprei muitos e bons títulos , foi lá que assisti a muitos eventos culturais interessantes e, por curiosidade, é na Bulhosa que fiz uma das minhas raríssimas e curtíssimas aparições na TV, aos 12 anos, num programa da RTP 2, a falar do Principezinho. Espero que alguém lá dos arquivos já tenha tomado a decisão certa: destruir essa cassete.
Enfim, continuando: Sei, pela experiência que tive a trabalhar na outra livraria, como é difícil abrir e manter um espaço assim nos dias que correm. Admiro cada vez mais quem consegue fazê-lo, fugindo dos grandes centros comerciais e da correria que não corresponde à literatura.
Mas para isso têm de ceder a outras coisas para ganhar clientela: criaram-se cafetarias, algumas vendem bolinhos e brinquedos e o totoloto, e algumas até já vendem mais coisas dessas do que livros. É sinal dos tempos. Para mim até prefiro que tenham esses apetrechos mas que continuem assim, livrarias que permitem às pessoas um contacto mais próximo, personalizado e sossegado com os livros. Por mais defeitos que tivesse, a Bulhosa era assim.
A Bulhosa chegou ao fim, e é triste ver que um espaço tão dinâmico e acolhedor teve de acabar. É uma boa parte da minha vida em Lisboa e das minhas memórias literárias que também se fecha. É pena, mas a vida continua, e lá no fundo, o que interessa é ler livros, independentemente de serem comprados na Lello ou no Continente. Só que a experiência de uma livraria a sério é um pequeno pormenor que, quando corre bem (porque também há livreiros desprezíveis), torna diferente toda a experiência de comprar um livro. Para melhor.
A Livraria Bulhosa de Entrecampos foi um dos espaços que marcaram o meu crescimento. Até hoje visitava-a quase diariamente, e foi graças ao seu "espólio" que descobri muitos belos romances, ensaios e BDs.
Há quase dois meses encerraram por motivos de inventário, como indicava o letreiro que colocaram à porta. Estranhei porque, como bem sabia graças à minha experiência de trabalhar numa outra livraria igualmente importante para mim, os inventários costumam ser feitos mais para o fim do ano/início do ano seguinte. Além de que, por terem forrado o vidro todo da loja, dava mais a ideia de que a mesma tinha fechado de vez. Mas não questionei mais.
Passaram-se dias e semanas. Estava a ser o inventário mais longo de sempre, pelas minhas contas.
Um dia voltei a passar por lá e o letreiro tinha desaparecido. Desde então passaram-se mais umas semanas e já não tinha dúvidas do que tinha realmente acontecido.
Hoje passei pelas Amoreiras, que tem uma outra Bulhosa, ainda em funcionamento (mas a fraca iluminação dá a ideia que também está prestes a desaparecer). Descaradamente, pedi ao funcionário que estava no balcão para confirmar as minhas suspeitas.
"Sim, infelizmente", diz ele, "é uma pena".
E com pouca vontade de continuar a falar no assunto, não acrescenta mais nada.
Acreditem em mim quando vos digo que esta não é uma tentativa de fazer aqueles posts paternalistas relacionados com coisas culturais que encerram sem aviso ou qualquer interesse geral. Posts que acabam sempre com frases do género "a culpa é vossa se a livraria fechou porque não iam lá" ou "ai a minha vida nunca será a mesma com este encerramento". Sei é que alguns dos meus amigos facebookianos também conheciam esta Bulhosa e, provavelmente, sentirão também alguma tristeza com o seu término.
Não era uma livraria espectacular, mas destacava-se por ser aquilo que um estabelecimento como esse deve ser: uma casa de cultura e diversidade, ou seja, algo mais do que um espaço de venda de livros. Foi lá que comprei muitos e bons títulos , foi lá que assisti a muitos eventos culturais interessantes e, por curiosidade, é na Bulhosa que fiz uma das minhas raríssimas e curtíssimas aparições na TV, aos 12 anos, num programa da RTP 2, a falar do Principezinho. Espero que alguém lá dos arquivos já tenha tomado a decisão certa: destruir essa cassete.
Enfim, continuando: Sei, pela experiência que tive a trabalhar na outra livraria, como é difícil abrir e manter um espaço assim nos dias que correm. Admiro cada vez mais quem consegue fazê-lo, fugindo dos grandes centros comerciais e da correria que não corresponde à literatura.
Mas para isso têm de ceder a outras coisas para ganhar clientela: criaram-se cafetarias, algumas vendem bolinhos e brinquedos e o totoloto, e algumas até já vendem mais coisas dessas do que livros. É sinal dos tempos. Para mim até prefiro que tenham esses apetrechos mas que continuem assim, livrarias que permitem às pessoas um contacto mais próximo, personalizado e sossegado com os livros. Por mais defeitos que tivesse, a Bulhosa era assim.
A Bulhosa chegou ao fim, e é triste ver que um espaço tão dinâmico e acolhedor teve de acabar. É uma boa parte da minha vida em Lisboa e das minhas memórias literárias que também se fecha. É pena, mas a vida continua, e lá no fundo, o que interessa é ler livros, independentemente de serem comprados na Lello ou no Continente. Só que a experiência de uma livraria a sério é um pequeno pormenor que, quando corre bem (porque também há livreiros desprezíveis), torna diferente toda a experiência de comprar um livro. Para melhor.
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