sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O contrato do desenhador - uma tergiversão

Um dos problemas da técnica do «contrato do desenhador» é que, em última instância, significa um retrocesso: o livro anda a reboque de uma fama que lhe é exterior, em vez do reverso. De tubarão, vira rémora. Uma das mais belas fantasias sobre o mundo do livro é que tem uma relação de autonomia com as regras do jogo social. De alguma forma (como a ideia de universidade) resiste. A universidade e o livro, instrumentos que simbolizam o saber, andam em constante desencontro com o passo da sociedade: ora mais devagar, ora mais depressa. O passo coincide também, mas essa co-incidência é até suspeita, dado que a autonomia do livro - texto que leva tempo a ser produzido e consumido - e da universidade (espaço onde o conhecimento é «sagrado», ergo fora do tempo profano) está feita para que tal não aconteça. Em teoria, o livro impõe-se à sociedade, servindo regras próprias. Na prática, não é/nunca foi assim, mas é uma ideia que ainda ilumina o mundo editorial: a de que livrarias, editoras, bibliotecas, autores, leitores, decidem - ao optar por essa estranha forma de objecto - arrepiar caminho, desobedecer às regras fátuas, fáceis e volúveis dos, por exemplo, mass media, de entusiasmo rápido e consumo ainda mais rápido.

Um livro pode passar de geração em geração e é guardado, para voltar a ler, mesmo que isso raramente aconteça. É um objecto dotado de valor - o valor que lhe é atribuído.

Quando o meio editorial cai na facilidade de parasitar o sucesso obtido noutros media não está a a criar valor - é um pouco como o especulador financeiro, nada cria, apenas manipula, e quase sempre em proveito exclusivamente próprio, como o desmantelar de empresas para mais rapidamente obter lucro. Um exemplo: a velocidade a que, sem sequer contactar o pré-texto, foi publicada uma biografia de Salvador «Amar pelos dois» Sobral, Pouco ou nada mais fazendo que a compilação do que saíra nas revistas de TV. & arredores. Há aqui interesse público? Não. Do público sim, há público para aquilo. Mas é oportunismo, não sentido de oportunidade; é preguiça, não investimento; é esperteza, não inteligência.

Agora a derradeira pergunta: é errado? Não, não é. Mas não ser errado não faz com que seja certo.

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