Por Céu Coutinho
Edição independente – editar nas margens e nos interstícios
João Concha propõe como ponto de partida para a aula o
termo edição independente. O que é, ao certo, uma editora independente? É uma
editora situada à margem dos grandes grupos que, de alguma forma, produz
objectos diferentes. A (não) edições nasceu em 2012 e começou a publicar em
2013, na maré das novas casas editoriais que surgiram em reacção à
concentração editorial. É um projecto estruturado por colecções, com uma linha
editorial muito vincada para cada uma.
As Colecções
A conversa prosseguiu com a apresentação das colecções
da (não) edições. A Colecção 32 edita poesia em livrinhos muito breves,
de apenas 32 páginas. O nome vem da noção de folio que é uma espécie de unidade
mínima do livro. Para a composição do livro o número de páginas tem de ser
múltiplo de quatro. Dá-se o nome de folio ao conjunto de 32 páginas. A forma
ajusta-se perfeitamente ao conteúdo já que permite apresentar o trabalho de
poetas de uma forma breve e a um preço acessível.
É importante que cada colecção tenha uma linha
estética ou gráfica reconhecível. Na edição é tão importante o que se edita
quanto o modo como se edita. Editar é mostrar o conteúdo sob uma
determinada forma. Passa pela paginação (tipo de letra, espaçamento, etc.) mas
também pode envolver a discussão do texto com o autor. No caso da poesia,
decidir, por exemplo, qual deve ser o primeiro poema a apresentar (e o último).
Uma editora pode dedicar-se somente a um género ou a
vários. Mas tem de haver coerência. A (não) edições pretende mostrar a poesia
sob diversas formas. A Colecção Traditore é dedicada à poesia ou prosa
poética traduzida. A edição de um texto traduzido envolve vários aspectos
específicos como os direitos de autor, a vontade da editora e do próprio autor
em ver o texto traduzido num determinado idioma. Aqui entram em jogo, em muitos
casos, as agências literárias que gerem direitos de autor relativos a outras
formas que o livro pode assumir, sejam traduções sejam adaptações ao cinema,
por exemplo. Foi referido o exemplo do livro da Patti Smith (O Mar de Coral).
Dentro de cada colecção podem ainda existir núcleos
editoriais. A existência de denominadores comuns é o que define um núcleo. Por
exemplo, reunir autores conhecidos noutras áreas (música, cinema, etc.) que
também escrevem poesia ou prosa poética. A identidade deve ser reconhecível
para lá da linguagem verbal. Editar é também ajudar a ler, dar pistas sobre o
livro, fornecer um contexto ou um enquadramento.
A Colecção Cénicas reúne textos de teatro,
sejam peças ou outros textos relacionados com teatro. Mariana Pineda, de
Frederico Garcia Lorca, é a publicação mais recente. A Colecção Alice é
dirigida a crianças (designação que o editor prefere ao termo infantil) e os
três livros editados estão esgotados. Não são feitas reedições devido aos
custos elevados. De notar que a (não) edições trabalha com tiragens pequenas,
entre 150 e 200 exemplares.
Isto encaminhou a conversa para os tipos de impressão,
nomeadamente o exemplo de um tipo de impressão ecológica, a risografia. Foram
ainda mencionadas questões práticas relativas ao ISBN e ao Depósito Legal. Esta parte
da aula culminou com uma visita aos elementos do livro: capa, contra-capa,
guardas, ficha técnica, folha de rosto, miolo, cólofon.
Chegar aos leitores
Em resposta a uma questão relativa à comunicação das
pequenas editoras, João Concha referiu a newsletter e o press release
como duas ferramentas básicas para comunicar a vida da editora. Outras são as
redes sociais, os lançamentos e apresentações, as leituras, as feiras e
festivais.
Um papel de relevo no circuito da comunicação e
divulgação está reservado às livrarias independentes. Reafirmou-se o surgimento
de um circuito paralelo de lugares alternativos (editoras, livrarias, eventos)
como reacção à concentração dos grandes grupos editoriais.
João Concha mantém a firme crença de que o futuro está
nas editoras independentes. Encontram caminhos alternativos, constituem
uma via desimpedida tanto para autores como para leitores. Foi
mencionado o exemplo recente do Festival Silêncio que tem um espaço
inteiramente dedicado às editoras independentes.
Recepção / crítica e distribuição
A concluir, discutiram-se duas grandes fragilidades do
circuito da edição independente. Em primeiro lugar, a falta de espaços nos
meios de comunicação para a crítica, sobretudo a crítica especializada. O que
subsiste são textos que não chegam a ultrapassar a mera sinopse ou o comentário
pouco informado.
Por fim, a distribuição. O aspecto mais frágil da
cadeia do livro, do mercado editorial, desde a insolvência da Sodilivros (em
2012). O seu desaparecimento veio prejudicar seriamente as pequenas editoras.
No caso da (não) edições a distribuição é assegurada pelo próprio editor que se
encarrega se entregar os livros pessoalmente, no caso das livrarias de Lisboa,
ou de fazer o envio pelo correio, para os pontos de venda mais distantes.
Uma vez que este editor é também autor, ilustrador e designer,
entre outras facetas, é curioso assinalar que estamos em presença de uma
verdadeira editora one man show.
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