quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Masterclass: com o editor João Concha

Por Céu Coutinho

Edição independente – editar nas margens e nos interstícios 
João Concha propõe como ponto de partida para a aula o termo edição independente. O que é, ao certo, uma editora independente? É uma editora situada à margem dos grandes grupos que, de alguma forma, produz objectos diferentes. A (não) edições nasceu em 2012 e começou a publicar em 2013, na maré das novas casas editoriais que surgiram em reacção à concentração editorial. É um projecto estruturado por colecções, com uma linha editorial muito vincada para cada uma.

As Colecções
A conversa prosseguiu com a apresentação das colecções da (não) edições. A Colecção 32 edita poesia em livrinhos muito breves, de apenas 32 páginas. O nome vem da noção de folio que é uma espécie de unidade mínima do livro. Para a composição do livro o número de páginas tem de ser múltiplo de quatro. Dá-se o nome de folio ao conjunto de 32 páginas. A forma ajusta-se perfeitamente ao conteúdo já que permite apresentar o trabalho de poetas de uma forma breve e a um preço acessível.

É importante que cada colecção tenha uma linha estética ou gráfica reconhecível. Na edição é tão importante o que se edita quanto o modo como se edita. Editar é mostrar o conteúdo sob uma determinada forma. Passa pela paginação (tipo de letra, espaçamento, etc.) mas também pode envolver a discussão do texto com o autor. No caso da poesia, decidir, por exemplo, qual deve ser o primeiro poema a apresentar (e o último).

Uma editora pode dedicar-se somente a um género ou a vários. Mas tem de haver coerência. A (não) edições pretende mostrar a poesia sob diversas formas. A Colecção Traditore é dedicada à poesia ou prosa poética traduzida. A edição de um texto traduzido envolve vários aspectos específicos como os direitos de autor, a vontade da editora e do próprio autor em ver o texto traduzido num determinado idioma. Aqui entram em jogo, em muitos casos, as agências literárias que gerem direitos de autor relativos a outras formas que o livro pode assumir, sejam traduções sejam adaptações ao cinema, por exemplo. Foi referido o exemplo do livro da Patti Smith (O Mar de Coral).

Dentro de cada colecção podem ainda existir núcleos editoriais. A existência de denominadores comuns é o que define um núcleo. Por exemplo, reunir autores conhecidos noutras áreas (música, cinema, etc.) que também escrevem poesia ou prosa poética. A identidade deve ser reconhecível para lá da linguagem verbal. Editar é também ajudar a ler, dar pistas sobre o livro, fornecer um contexto ou um enquadramento.

A Colecção Cénicas reúne textos de teatro, sejam peças ou outros textos relacionados com teatro. Mariana Pineda, de Frederico Garcia Lorca, é a publicação mais recente. A Colecção Alice é dirigida a crianças (designação que o editor prefere ao termo infantil) e os três livros editados estão esgotados. Não são feitas reedições devido aos custos elevados. De notar que a (não) edições trabalha com tiragens pequenas, entre 150 e 200 exemplares.

Isto encaminhou a conversa para os tipos de impressão, nomeadamente o exemplo de um tipo de impressão ecológica, a risografia. Foram ainda mencionadas questões práticas relativas ao ISBN e ao Depósito Legal. Esta parte da aula culminou com uma visita aos elementos do livro: capa, contra-capa, guardas, ficha técnica, folha de rosto, miolo, cólofon.

Chegar aos leitores
Em resposta a uma questão relativa à comunicação das pequenas editoras, João Concha referiu a newsletter e o press release como duas ferramentas básicas para comunicar a vida da editora. Outras são as redes sociais, os lançamentos e apresentações, as leituras, as feiras e festivais.

Um papel de relevo no circuito da comunicação e divulgação está reservado às livrarias independentes. Reafirmou-se o surgimento de um circuito paralelo de lugares alternativos (editoras, livrarias, eventos) como reacção à concentração dos grandes grupos editoriais.

João Concha mantém a firme crença de que o futuro está nas editoras independentes. Encontram caminhos alternativos, constituem uma via desimpedida tanto para autores como para leitores. Foi mencionado o exemplo recente do Festival Silêncio que tem um espaço inteiramente dedicado às editoras independentes.

Recepção / crítica e distribuição
A concluir, discutiram-se duas grandes fragilidades do circuito da edição independente. Em primeiro lugar, a falta de espaços nos meios de comunicação para a crítica, sobretudo a crítica especializada. O que subsiste são textos que não chegam a ultrapassar a mera sinopse ou o comentário pouco informado.

Por fim, a distribuição. O aspecto mais frágil da cadeia do livro, do mercado editorial, desde a insolvência da Sodilivros (em 2012). O seu desaparecimento veio prejudicar seriamente as pequenas editoras. No caso da (não) edições a distribuição é assegurada pelo próprio editor que se encarrega se entregar os livros pessoalmente, no caso das livrarias de Lisboa, ou de fazer o envio pelo correio, para os pontos de venda mais distantes.


Uma vez que este editor é também autor, ilustrador e designer, entre outras facetas, é curioso assinalar que estamos em presença de uma verdadeira editora one man show.

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