O mais interessante para mim neste texto é, além de se tratar de um teaser disfarçado de reportagem, a voz do jornalista ir variando, passando da dúvida (não leu) à certeza (não há dúvida) e como, sem reparar, vai aderindo e tornando suas ideias que... enfim, não são suas - porque nitidamente ainda não leu. Aqui não se trata de avaliar a qualidade do livro (de facto tem tido boas críticas no mundo anglo-saxónico e, como acontece todas as temporadas, esse mundo poderoso impô-lo ao mundo como a nova novidade, ao contrário dos desgraçados autores, editores e agentes literários romenos, quirguízios ou finlandeses, que não têm esse poder. Ou seja, o facto de o livro poder ser bom (repito: não é isso que está em causa) não pode ser confundido com a questão essencial: a reprodução, num jornal português, de um vício de forma contido na adesão cega às Hollywoods do Livro.
Dois romances devastadores prometem deixar marcas

O desconhecido Gabriel Tallent vai revelar-se aos leitores portugueses
Não faltam novidades literárias para chegar às livrarias na primeira metade do ano, estando confirmados vários romances de autores portugueses. O destaque, no entanto, vai para dois grandes romances estrangeiros - ainda se desconhece a temática do novo de Lídia Jorge: os livros de Gabriel Tallent e de Fernando Aramburu
O título português de My Absolute Darlingjá está escolhido: O Meu Amor Absoluto. É o romance de estreia de Gabriel Tallent, um autor mundialmente desconhecido mas que na rentrée literária norte-americana apareceu com o grande romance entre as novidades apresentadas. A editora Relógio d"Água comprou os direitos para Portugal e em fevereiro o seu valor literário já pode ser conferido pelos leitores. [Comentário: não estamos fartos de que o «grande romance em destaque seja americano?]
Contrariamente a outros fenómenos de literatura fabricados pelas grandes editoras, tudo indica que O Meu Amor Absoluto não se fique pela propaganda, pois quem já o leu na edição inglesa - a Portugal chegaram alguns poucos exemplares - considera estar-se perante uma grande obra. Seja a nível de violência emocional, suportada por uma narrativa excelente, seja pela forma como o relato vai crescendo e confronta o leitor com um drama impiedoso numa história em que um pai transforma a sua filha a seu bel-prazer. Turtle é uma menina que aos seis anos recebe a primeira arma de presente e aos 14 tem muito melhor pontaria que notas escolares. Martin é um pai que prepara a filha contra todos os males do mundo, infligindo-lhe outros, como o abuso sexual.
[Comentário: «contrariamente a outros fenómenos porquê?]
Não se vai contar mais da história mas sim a do livro, sobre o qual no final de agosto a crítica do The New York Times dizia ser "um romance de estreia que desce à escuridão" e garantia que, num "mundo literário muitas vezes claustrofóbico, Tallent parece ter chegado [aos 30 anos] já formado". Entre os elementos biográficos, destaca-se a tradicional história do escritor esforçado que serve à mesa de restaurantes para pagar as contas e vive no interior até ao momento em que consegue vender o seu original à editora Riverhead em 2015. Nada disto importa, pois o romance ultrapassa todos os fait-divers montados para o promover. [Comentário: como sabe?]
Se a opinião da crítica é unânime, editores de todo o mundo têm feito fila para o ter no seu catálogo. É o caso de Francisco Vale, que espera uma boa receção ao livro: "Merece-o, mesmo que saiba que no caso da primeira obra a descoberta pelos leitores será provavelmente lenta e dependente da atenção dos críticos." Considera que O Meu Amor Absoluto "põe à prova as características dos leitores, pois só os melhores serão capazes de vencer a dificuldade inicial criada por descrições violentas. O tema do tratamento brutal de uma adolescente de 14 anos e a relação sexualizada que o pai lhe impõe não é um tema fácil. Mas Tallent transformou esse tema em excelente literatura".
[Não entendo: ser capaz de de ver descrições de violência é a marca dos bons leitores? A mim parece teaser disfarçado: «Olhem que vai haver sexo & violência!»]
Para o editor da Relógio d"Água, este primeiro livro de Gabriel Tallent é a revelação de um "grande autor", tanto pela escrita como pelo facto de ter "arriscado num tema difícil e sempre próximo do abismo". Francisco Vale alerta para o facto de nunca se saber se "uma excelente estreia será confirmada, mas o que se vê é a capacidade inicial de criar uma personagem notável, ameaçada pelo amor asfixiante do pai, que vive em perigo constante, mas nunca apresentada com uma rapariga passiva e inocente". (...)
[É bom dar a palavra ao editor. Os editores ficam sempre gratos. Mas o que queria o jornalista que o editor dissesse? Que ia publicar um péssimo livro com um tema banal e escrita medíocre?]
O resto do artigo, após esta entrada americana em grande, segue aqui:
Dois romances devastadores prometem deixar marcas
O desconhecido Gabriel Tallent vai revelar-se aos leitores portugueses
Não faltam novidades literárias para chegar às livrarias na primeira metade do ano, estando confirmados vários romances de autores portugueses. O destaque, no entanto, vai para dois grandes romances estrangeiros - ainda se desconhece a temática do novo de Lídia Jorge: os livros de Gabriel Tallent e de Fernando Aramburu
O título português de My Absolute Darlingjá está escolhido: O Meu Amor Absoluto. É o romance de estreia de Gabriel Tallent, um autor mundialmente desconhecido mas que na rentrée literária norte-americana apareceu com o grande romance entre as novidades apresentadas. A editora Relógio d"Água comprou os direitos para Portugal e em fevereiro o seu valor literário já pode ser conferido pelos leitores. [Comentário: não estamos fartos de que o «grande romance em destaque seja americano?]
Contrariamente a outros fenómenos de literatura fabricados pelas grandes editoras, tudo indica que O Meu Amor Absoluto não se fique pela propaganda, pois quem já o leu na edição inglesa - a Portugal chegaram alguns poucos exemplares - considera estar-se perante uma grande obra. Seja a nível de violência emocional, suportada por uma narrativa excelente, seja pela forma como o relato vai crescendo e confronta o leitor com um drama impiedoso numa história em que um pai transforma a sua filha a seu bel-prazer. Turtle é uma menina que aos seis anos recebe a primeira arma de presente e aos 14 tem muito melhor pontaria que notas escolares. Martin é um pai que prepara a filha contra todos os males do mundo, infligindo-lhe outros, como o abuso sexual.
[Comentário: «contrariamente a outros fenómenos porquê?]
Não se vai contar mais da história mas sim a do livro, sobre o qual no final de agosto a crítica do The New York Times dizia ser "um romance de estreia que desce à escuridão" e garantia que, num "mundo literário muitas vezes claustrofóbico, Tallent parece ter chegado [aos 30 anos] já formado". Entre os elementos biográficos, destaca-se a tradicional história do escritor esforçado que serve à mesa de restaurantes para pagar as contas e vive no interior até ao momento em que consegue vender o seu original à editora Riverhead em 2015. Nada disto importa, pois o romance ultrapassa todos os fait-divers montados para o promover. [Comentário: como sabe?]
Se a opinião da crítica é unânime, editores de todo o mundo têm feito fila para o ter no seu catálogo. É o caso de Francisco Vale, que espera uma boa receção ao livro: "Merece-o, mesmo que saiba que no caso da primeira obra a descoberta pelos leitores será provavelmente lenta e dependente da atenção dos críticos." Considera que O Meu Amor Absoluto "põe à prova as características dos leitores, pois só os melhores serão capazes de vencer a dificuldade inicial criada por descrições violentas. O tema do tratamento brutal de uma adolescente de 14 anos e a relação sexualizada que o pai lhe impõe não é um tema fácil. Mas Tallent transformou esse tema em excelente literatura".
[Não entendo: ser capaz de de ver descrições de violência é a marca dos bons leitores? A mim parece teaser disfarçado: «Olhem que vai haver sexo & violência!»]
Para o editor da Relógio d"Água, este primeiro livro de Gabriel Tallent é a revelação de um "grande autor", tanto pela escrita como pelo facto de ter "arriscado num tema difícil e sempre próximo do abismo". Francisco Vale alerta para o facto de nunca se saber se "uma excelente estreia será confirmada, mas o que se vê é a capacidade inicial de criar uma personagem notável, ameaçada pelo amor asfixiante do pai, que vive em perigo constante, mas nunca apresentada com uma rapariga passiva e inocente". (...)
[É bom dar a palavra ao editor. Os editores ficam sempre gratos. Mas o que queria o jornalista que o editor dissesse? Que ia publicar um péssimo livro com um tema banal e escrita medíocre?]
O resto do artigo, após esta entrada americana em grande, segue aqui:
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