quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Faltam pontos no programa!

Reparei, com muita lágrima de Crocodilo Danilo, que faltam alguns pontos no programa. Tentarei colmatá-los. Aqui fica uma nota sobre a tradução.

DA IMPOSSIBILIDADE DE TRADUÇÃO
Muita gente pergunta-me como se negoceia uma tradução para outra língua, sobretudo quando há trabalho sobre a língua de partida, seja pela música ou pelas imagens ou mesmo, em alguns casos, por ataques de joyceanite aguda (e, neste caso, mecanicalaranjite com schtrumpfismos de bairro), o que complica ainda mais a coisa. Aqui fica uma pequena amostra de tentativa de explicação das nuances de um texto a fim de não tornar demasiado difícil a sua tradução, só impossível:

1. Amostra A
«(...) Eu numa zurk Kanina sa pravda né uka vou dazer: u Gargal zurkava bué das suas, atão eu imeus druks zurkámos pra zurkinar u kaxaz ó Gargal.»

Trad: Eu não me chame Canina (de pequenino, alcunha típica da minha infância e do meu bairro) se não é verdade (pravda = verdade em russo, era o jornal comunista russo) não é (né) o que vou dizer: o Gargalo (gargalo da garrafa) fazia muitas asneiras. Então eu e o meu grupo decidimos dar-lhe uma lição.

2. Amostra B
«Era a mine das mines ópois da pulhapulhisse ku nazdróvio zurkou ó Kajó. Zurkai-vos in nós xoné: onra da zonra. Onra da zonra. Navia ipótze. Tínhumos da lha zurkar u infólio, niet? Inera à manhã nem ópois, era oje, oje, ojoje.»

Trad: Era o mínimo dos mínimos (mine = gíria para sagres mini, a cerveja - ó patrão, dê-me aí uma mine) depois (ó-pois) da pulhice (maldade, sacanice, coisa chata) que o imbecil (nazdaróvio = adeus em russo, nazdrovie) fez (zurkou) ao Cajó (Carlos Jorge, diminutivo-alcunha). [Ou seja, o Gargalo fez uma maldade a um amigo deles chamado Cajó. Coisas de pequenos gangsters,] Zurkai-vos em nós xoné = ponham-se no nosso lugar (xoné = louco em gíria portuguesa, pelo sentido, mas sapato pelo som, put yourself in our shoes). [É complicado, eu sei...] Onra dasonra: honra das honras, juro que é verdade, mas há também uma brincadeira com "honra e desonra", o clássico dueto que os antropólogos identificaram, "honra e vergonha". Navia ipótze = não havia hipótese. Tínhamos de lhe limpar o sebo/dar uma lição/ uma carga de porrada. O infólio = fazer a folha, gíria para bater, lixar, tramar ou mesmo matar. Aqui o termo infólio é usado porque (para quem sabe) é in folio, de edição in folio. Inera à manhã nem ó pois = e não era amanhã nem depois, era hoje, hoje, hoje mesmo, hoje-hoje.

3. Comentário
Pois é. Dá trabalho. Um trabalho de relojoeiro, que seria facilitado se as pessoas não se metessem em avarias e escrevessem livros comagentegosta:
1) capítulos curtos (já ninguém tem paciência para ler)
2) com suspense, acção e sexo (quem lê tem de ter algum consolo)
3) usando linguagem simples, pobre mesmo (não obrigue o leitor a ir ao dicionário, deixe isso para as Agustinas)
4) debite banalidade amáveis
5) imite o que está a dar
6) sorria, está a ser filmado/a.

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