quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O trabalho árduo de um editor




Comprei, há pouco tempo, uma compilação de short fiction de Virginia Woolf, A Haunted House: The Complete Shorter Fiction, da Vintage Classics e editado por Susan Dick. Achei, desde logo, interessante o facto de o nome da editora se encontrar na capa, visto ser uma das grandes académicas sobre Woolf. Ainda mais interessante foi o deparar-me com muito mais do que uma coletânea de textos.
O livro inicia-se com uma introdução de Helen Simpson, autora britânica, que faz uma curta análise de Virginia Woolf, o seu estilo, a sua bibliografia, faz comparações com outros autores e a relação de Woolf com as pequenas histórias e os romances. De seguida, a editora apresenta-nos a sua própria introdução, onde explica a seleção dos textos e outras escolhas que teve de fazer, como a ordem pela qual se encontram e o efeito que quis transmitir.
A editora descreve ainda os processos editoriais (Editorial Procedures) da compilação. Clarifica quais dos textos são reimpressões e quais são inéditos, explicando que obteve os rascunhos de Woolf e que o processo editorial passou por comparar os textos já publicados com os manuscritos da autora. Para além de mostrar alguns exemplos de diferenças entre ambos e as supostas revisões da autora, Susan Dick avisa o leitor de que existem manuscritos de Woolf que não foram revistos pela escritora, pelo que assim foram publicadas nesta coletânea. Fala também de compilações prévias dos textos de Woolf, nomeadamente a que foi publicada pelo marido, e assinala ainda as revisões que este também fazia nos manuscritos de Virginia Woolf e como, nestes casos, a editora escolheu apenas as revisões da escritora, dizendo terem mais autoridade.
Em termos linguísticos, Dick explica as mudanças que efetuou: adicionou aspas, vírgulas, apóstrofes, hífens e parêntesis onde achou apropriado, ou seja, onde não fazia parte do estilo de Woolf, corrigiu erros de impressão, não colocou passagens cortadas e escreveu por extenso abreviaturas e contrações. Em cada modificação da editora, esta coloca-a entre parêntesis retos, acompanhando-a de uma nota explicativa. No entanto, apesar das mudanças assinaladas, Susan Dick não mexeu na pontuação quando esta provoca qualquer efeito sobre a história. Todas estas alterações parecem-me ser apenas possíveis e concretizáveis por alguém que estude Virginia Woolf durante anos e saiba exatamente o que pertence ao seu estilo.
O livro contém ainda, no final – e isto é explicado também nos processos editoriais –, a presença de apêndices e notas para quem desejar estudar os manuscritos e revisões de Woolf, onde incorporou também elementos biográficos que a editora tenha encontrado relacionadas com cada história.
Esta coletânea é um daqueles exemplos de trabalho árduo e extensivo por parte dos editores que o fazem mais por gosto e dedicação ao seu trabalho do que por dinheiro (apesar de, provavelmente, Virginia Woolf ainda vender muito bem). 

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