quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Um texto a carecer edição

«As elites e o mundo rural», in Público, 27/2/18, p. 43

O livro que, provavelmente, é o livro português mais interessante sobre o centeio em Portugal foi escrito por quem foi presidente do Tribunal de Contas e ministro das Finanças de Salazar. O conjunto de intervenções da Assembleia Nacional que foi reunido no opúsculo O problema das carnes reproduz um conjunto de intervenções de membros da Assembleia Nacional, de meados do século XX, bem ilustrativo do profundo conhecimento dos problemas do mundo rural que havia nas elites.
Hoje, por boas razões — vivemos todos melhor porque não vivemos quase todos da terra, como na altura —, em boa parte as elites têm uma percepção de um mundo rural que é essencialmente a de um cenário que existe naturalmente, sem gestão quotidiana e dura.
Mesmo quando se esforçam por conhecer as fileiras económicas que gerem o mundo rural, grande parte das nossas elites tem uma grande dificuldade em compreender que a gestão de fazemos do território é, essencialmente, uma luta constante contra a evolução dos sistemas naturais.
Um bom exemplo é o artigo de Manuel Carvalho, no PÚBLICO de 23 de Fevereiro, “Foi você que pediu a limpeza das matas?”, em que se defende a paranóia que tomou conta do actual Governo em matéria de “limpeza” de matas.
O argumento central do artigo é: “Os que andaram nos meses do estio do ano passado a lamentar a incúria dos proprietários ou a negligência das autarquias não podem por isso agora dar o dito pelo não dito e culpar a lei por ser imperfeita, danosa ou megalómana. Na vida das nações há prioridades e uma das maiores prioridades de Portugal é fazer tudo para que o Verão de 2017 fique confinado à memória de um pesadelo que não pode acontecer nunca mais.”
Talvez valha a pena dar uns passos atrás para tentar explicar por que razão a lei é evidentemente danosa e, mais que isso, uma demonstração de que é mesmo com o fogo que este Governo está a brincar.
O padrão de fogo que temos hoje resulta, essencialmente, da acumulação de combustíveis — matos, folhada, ervas, cascas, troncos — em consequência do abandono rural e das transformações dos processos produtivos, com especial destaque para a substituição dos estrumes por adubos.
Este processo de acumulação de combustíveis é um processo natural, acontece no terreno de qualquer pessoa, e responsabilizá-la por isso seria o mesmo que responsabilizar os agricultores por ter chovido pouco este ano e, portanto, os terrenos estarem a contribuir pouco para alimentar as barragens.
O que as actuais elites têm mais dificuldade em perceber é que, ao contrário da base da regulamentação das actividades humanas — construção, condução automóvel, alteração de linhas de água, despejo de efluentes, etc. —, não faz o menor sentido responsabilizar ninguém porque o seu terreno evolui naturalmente.
Pode argumentar-se que existe a obrigação dos proprietários gerirem bem as suas propriedades, o que, naturalmente, obrigaria a que se definisse o que é gerir bem uma propriedade que não tem potencial produtivo suficiente para pagar essa gestão.
Com base no argumento de que gerir bem é não pôr em risco o vizinho — desresponsabilizando o vizinho em relação à sua própria segurança —, Portugal fez uma opção clara depois dos grandes fogos de 2003 e 2005: responsabilizar os proprietários pela “limpeza” das suas propriedades, independentemente de essa limpeza ser insustentável, muitas vezes inútil e, com frequência, indesejável.
Esta opção, fortemente influenciada pelo então ministro da Administração Interna, António Costa, transformou um problema de economia — qual a forma mais eficiente de gerir sensatamente o fogo com os recursos existentes — num problema de polícia — tens obrigações legais de gerir combustíveis, mesmo que isso não tenha qualquer viabilidade económica, para proteger terceiros.
O Estado atribuiu uma responsabilidade privada à defesa do bem comum, criando na gestão florestal o inferno do capitalismo: privatizou os prejuízos em nome da socialização dos benefícios.
No processo, o Estado desresponsabilizou-se de fazer uma declaração de utilidade pública das faixas de gestão de combustíveis, para evitar ter de pagar as perdas de rendimento associadas, e o Estado desresponsabilizou-se de afectar as verbas do mundo rural ao pagamento de serviços de ecossistemas, para as manter disponíveis para a alimentação de clientelas.
É assim que o Estado, evitando cuidadosamente referir que as faixas de combustíveis previstas na lei resultam na retirada do processo produtivo de uma área que se poderá estimar em um milhão de hectares (10% do território nacional), consegue convencer a sociedade de que o problema da gestão sensata do fogo, nas condições sociais e económicas que temos, se resolve se, ao mesmo tempo que se inviabiliza a exploração económica desse milhão de hectares, se obrigar os proprietários prejudicados a gerir essas propriedades de forma absolutamente ruinosa.
Só elites sem a menor noção do que é a gestão do mundo rural podem defender que é irrelevante discutir se a lei é danosa porque a prioridade está em “fazer tudo para que o Verão de 2017 fique confinado à memória de um pesadelo que não pode acontecer nunca mais”.
Não, caro Manuel Carvalho, o que interessa não é “fazer tudo”, é mesmo fazer só o que está certo, é sustentável e se baseia num contrato social justo, é mesmo só isso, nada mais. E nada disso tem vindo a ser feito pelo Estado, bem pelo contrário. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O encerramento da Pó dos Livros

"No dia 31 de Março de 2018, mais esta livraria passará a ser uma mera recordação, um pedaço de pó na memória de poucos.Mais tarde escreverei sobre as causas e razões. Farei também os devidos agradecimentos a quem sempre nos apoiou, porque percebe qual importância da existência  de uma rede de livrarias independentes em todas as nossas vilas e cidades." Ler aqui o comunicado de Jaime Bulhosa.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Dos ebooks

Sempre quente, a discussão sobre livros em papel e e-livros. Aqui uma posição a favor destes últimos.

«(...) And then there’s the simplest, most important enhancement of all: on any e-reader, you can enlarge the text. That in itself is a quiet revolution. Page-sniffers who dismiss ebooks out of hand are being unconsciously ableist. For decades the partially sighted were limited to the large print section of their local library, limited to only the usual, bestselling, suspects. Smaller authors might not be worth the punt and indie presses often don’t have the budget. The ability to enlarge text means that many readers are enjoying diverse voices, novels in translation, experimental short story collections – anything they want, for the first time in decades. (...)»

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Edição crítica

"De facto, é mais barato reproduzir infinitamente e também dá menos trabalho. Há quem invoque a questão dos direitos de autor, mas isso é apenas uma má desculpa, porque os direitos de Eça de Queirós estão em domínio público. A editora pode usar edições críticas sem ter de pagar um tostão nem à Imprensa Nacional nem à família de Eça. Se não usa, é por preguiça - porque usar edições críticas obriga a recompor o texto e não apenas a fazer uma reprodução fotomecânica - ou por razões económicas. Isto merece uma reflexão. " Expresso, 21.2.2018 Ler aqui

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

AGENTES: dito assim é muito bonito

«She had an uncanny nose for good writing and the rarest of agent's talents: she knew how to match a book to a publisher.»

Um obituário de uma grande agente literária inglesa, Pat Kavanagh, casada com um escritor de quem era também agente, Julian Barnes. Há uma famosa zanga com o amigo de ambos Martin Amis (podem procurar nos jornais).  

Resto do artigo aqui. É no The Guardian mas de acesso livre, por opção do jornal. 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

PLANIFICAÇÃO TÉCNICAS DE EDIÇÃO

Aula um (14/2) -  Programa. Proposta: um projecto. Trabalho aos pares: um autor e um editor, mudando de lugar. 

Dois (21/2) - Exercícios de tradução.
Três (28/2) - Masterclass: com a tradutora Rita Ray (Univ. Jadavpur, Calcutá - língua bangla). Continuação da discussão dos exercícios de tradução. 
Quatro (7/3) - Orçamentos. Contratos. Comunicação do livro. A mailing list. Exercício de tradução. O registo ISBN.  Novo exercício: de edição. 
Cinco (14/3) - Apresentação e discussão dos exercícios da aula anterior. Exemplos práticos de macro e micro-edição. Como desenvolver essa competência?
-------------------------------------------------------------------------------
Páscoa (26/3-2/4)
Seis (21/3) - Discussão dos projectos. Balanço da matéria dada e por dar. Exercícios.  
Sete (4/4) - 

Oito (18/4)
-------------------------------------------------------------------------------
25 de Abril
Nove (2/5) - Masterclass: com o editor Carlos da Veiga Ferreira (Teodolito, lendário editor da Teorema). 
Dez (9/5) - Visita a uma gráfica: Oficina do Cego. 
Onze (16/5) - 
Doze (23/5) - 
Treze (30/5) - Frequência
Catorze (6/5) - Visita à Feira do Livro de Lisboa



A Feira do Livro de Lisboa este ano realiza-se entre 1 e 18 de Junho. Aqui

TÉCNICAS DE EDIÇÃO

POR FAVOR, enviem o vosso mail para o
Docente responsável: zink.rui@gmail.com
a fim de serem convidados para co-autores deste blogue.

Critérios de avaliação: trabalho final (5-10 p.) e/ou teste final.  Outra participação pode influenciar positivamente a nota.

A disciplina centrar-se-á em exercícios, resolução de problemas, questões práticas em torno do texto e do livro, seja em papel ou noutro suporte. Ou seja, a edição vista como engenharia.
Previstas estão três sessões especiais com especialistas convidados.

Piada do coelhinho economista. Aqui trata-se de engenharia: encontrar formas de pôr em prática os «nossos sonhos». 

Tópicos
1. Masterclass com profissionais da área. 2. Editing: exercícios práticos. 3. Macro e micro-editing. 4. Embrulhar/desembrulhar o texto. 5. O texto por dentro: o autor, o texto, a coisa-por-editar. 6. O texto por fora: capa, contracapa, badanas. 7. O texto por dentro: tradução, revisão, edição. 8. O texto por fora: comunicação, marketing, distribuição. 9. O ciclo de trabalho no livro, a vida do livro: sales pitch, prémios, livro de bolso. 10, Contratos, direitos, conflitos e harmonias potenciais. 11. Fazer chegar o livro ao leitor. 12. E-livros, e-ditores e-leitores.

Nota: por deslocação de serviço do docente, algumas masterclasses (para mim, o ponto alto da cadeira) serão adiantadas: em vez de no último terço, no início das aulas.

Bibliografia exemplar 
 ● BACELLAR, Laura, Escreva seu livro – Guia prático de edição e publicação, S. Paulo, Mercuryo, 2001
● BAILEY, Herbert S., The Art & Science of Book Publishing, Athens, Ohio U.P., 1990
● BARZUN, Jacques, On Writing, Editing, and Publishing, Chicago, CUP, 1986
● BLASSELLE, Bruno, Histoire du Livre, Paris, Gallimard, 1998
● CALVINO, Italo, Se numa Noite de Inverno um Viajante, Lisboa, Teorema, 2000
● DUCHESNE, A., LEGUAY, Th., Petite Fabrique de Littérature, Paris, Magnard, 1984
● ECO, Umberto, O Pêndulo de Foucault, Lisboa, Difel, 1998
● ESCARPIT, Robert, Sociologie da Littérature, Paris, P.U.F., 1986 [1958]
● COSTA, Sara Figueiredo, Fernando Guedes - O decano dos Editores Portugueses, Lisboa, Booktailors, 2012
● COSTA, Sara Figueiredo, Carlos da Veiga Ferreira - Os Editores não se abatem, Lisboa, Booktailors, 2013
● FURTADO, José Afonso, Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação, Lisboa, Livros e Leituras, 2000 
● FURTADO, José Afonso, A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, Lisboa, Booktailors, 2009
● GROSS, Gerald (org.), Editors on Editing – An Inside View of What Editors Really Do, Nova Iorque, Harper & Row, 1985 [1962]
● GUTHRIE, Richard, Publishing - Principles & Practice, Londres, Sage, 2011
● JACKSON, Kevin, Invisible Forms, Nova Iorque, St. Martin’s Press, 2000
● LUCAS, Thierry, Le Guide de l’Auteur et du Petit Editeur, Lyon, AGEC-Juris, 1999
● MORFUACE, Pauline, Les comités de lecture, Ecrire et Éditer 3, Vitry, Publ. Du Calcre, Março 1998
● SAAL, Rollene, (The New York Public Library) Guide to Reading Groups, Nova Iorque, Crown Publ., 1995
●SCHIFFRIN, André, O Negócio dos Livros, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2006
● Outras fontes a consultar: APEL, UEP, revistas literárias, blogs sobre edição e livros na Internet Tedi09.blogspot.com, Blogtailors…

Foi engano, o anúncio do exame.

Blog errado. Exame para licenciatura.