segunda-feira, 12 de março de 2018

Lost in translation é favor

«Em 1968 e 1969, A Brincadeira foi traduzida em todas as línguas ocidentais. Mas, quantas surpresas! Em França, o tradutor reescreveu o romance ornamentando o meu estilo. Na Inglaterra, o editor cortou todas as passagens em que se fazem reflexões, eliminou os capítulos musicológicos, mudou a ordem das partes, recompôs o romance. Outro país. Encontro o meu tradutor. Não conhece uma palavra de checo. “Como é que traduziu?” Ele responde: “Com o meu coração”, e mostra-me a minha fotografia que tira da carteira. (…) Outro país: traduziram do checo. Abro o livro e dou, por acaso, com o monólogo de Helena. As longas frases que, no meu livro ocupam um parágrafo inteiro, estão divididas numa quantidade de frases simples… O choque causado pelas traduções de A Brincadeira marcou-me para sempre.»
A Arte do Romance, Milan Kundera, p. 151

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