sábado, 30 de dezembro de 2017

As três etapas da produção

Ver animação aqui.

O falar de ouvido

O mais interessante para mim neste texto é, além de se tratar de um teaser disfarçado de reportagem, a voz do jornalista ir variando, passando da dúvida (não leu) à certeza (não há dúvida) e como, sem reparar, vai aderindo e tornando suas ideias que... enfim, não são suas - porque nitidamente ainda não leu. Aqui não se trata de avaliar a qualidade do livro (de facto tem tido boas críticas no mundo anglo-saxónico e, como acontece todas as temporadas, esse mundo poderoso impô-lo ao mundo como a nova novidade, ao contrário dos desgraçados autores, editores e agentes literários romenos, quirguízios ou finlandeses, que não têm esse poder. Ou seja, o facto de o livro poder ser bom (repito: não é isso que está em causa) não pode ser confundido com a questão essencial: a reprodução, num jornal português, de um vício de forma contido na adesão cega às Hollywoods do Livro.

Dois romances devastadores prometem deixar marcas


O desconhecido Gabriel Tallent vai revelar-se aos leitores portugueses

Não faltam novidades literárias para chegar às livrarias na primeira metade do ano, estando confirmados vários romances de autores portugueses. O destaque, no entanto, vai para dois grandes romances estrangeiros - ainda se desconhece a temática do novo de Lídia Jorge: os livros de Gabriel Tallent e de Fernando Aramburu

O título português de My Absolute Darlingjá está escolhido: O Meu Amor Absoluto. É o romance de estreia de Gabriel Tallent, um autor mundialmente desconhecido mas que na rentrée literária norte-americana apareceu com o grande romance entre as novidades apresentadas. A editora Relógio d"Água comprou os direitos para Portugal e em fevereiro o seu valor literário já pode ser conferido pelos leitores.  [Comentário: não estamos fartos de que o «grande romance em destaque seja americano?] 

Contrariamente a outros fenómenos de literatura fabricados pelas grandes editoras, tudo indica que O Meu Amor Absoluto não se fique pela propaganda, pois quem já o leu na edição inglesa - a Portugal chegaram alguns poucos exemplares - considera estar-se perante uma grande obra. Seja a nível de violência emocional, suportada por uma narrativa excelente, seja pela forma como o relato vai crescendo e confronta o leitor com um drama impiedoso numa história em que um pai transforma a sua filha a seu bel-prazer. Turtle é uma menina que aos seis anos recebe a primeira arma de presente e aos 14 tem muito melhor pontaria que notas escolares. Martin é um pai que prepara a filha contra todos os males do mundo, infligindo-lhe outros, como o abuso sexual.

[Comentário: «contrariamente a outros fenómenos porquê?]

Não se vai contar mais da história mas sim a do livro, sobre o qual no final de agosto a crítica do The New York Times dizia ser "um romance de estreia que desce à escuridão" e garantia que, num "mundo literário muitas vezes claustrofóbico, Tallent parece ter chegado [aos 30 anos] já formado". Entre os elementos biográficos, destaca-se a tradicional história do escritor esforçado que serve à mesa de restaurantes para pagar as contas e vive no interior até ao momento em que consegue vender o seu original à editora Riverhead em 2015. Nada disto importa, pois o romance ultrapassa todos os fait-divers montados para o promover. [Comentário: como sabe?]

Se a opinião da crítica é unânime, editores de todo o mundo têm feito fila para o ter no seu catálogo. É o caso de Francisco Vale, que espera uma boa receção ao livro: "Merece-o, mesmo que saiba que no caso da primeira obra a descoberta pelos leitores será provavelmente lenta e dependente da atenção dos críticos." Considera que O Meu Amor Absoluto "põe à prova as características dos leitores, pois só os melhores serão capazes de vencer a dificuldade inicial criada por descrições violentas. O tema do tratamento brutal de uma adolescente de 14 anos e a relação sexualizada que o pai lhe impõe não é um tema fácil. Mas Tallent transformou esse tema em excelente literatura".

[Não entendo: ser capaz de de ver descrições de violência é a marca dos bons leitores? A mim parece teaser disfarçado: «Olhem que vai haver sexo & violência!»]

Para o editor da Relógio d"Água, este primeiro livro de Gabriel Tallent é a revelação de um "grande autor", tanto pela escrita como pelo facto de ter "arriscado num tema difícil e sempre próximo do abismo". Francisco Vale alerta para o facto de nunca se saber se "uma excelente estreia será confirmada, mas o que se vê é a capacidade inicial de criar uma personagem notável, ameaçada pelo amor asfixiante do pai, que vive em perigo constante, mas nunca apresentada com uma rapariga passiva e inocente". (...)

[É bom dar a palavra ao editor. Os editores ficam sempre gratos. Mas o que queria o jornalista que o editor dissesse? Que ia publicar um péssimo livro com um tema banal e escrita medíocre?]

O resto do artigo, após esta entrada americana em grande, segue aqui:

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Clara Pinto Correia

Não dei conta que CPC tinha lançado um novo livro (em final de Outubro). Soube hoje pela crítica na Visão, assinada por Luís Almeida Martins. Vou à procura de mais informação, não encontro outras críticas. Apenas constato que o livro foi apresentado na FNAC Chiado por...Luís Almeida Martins. Suponho que a escritora ainda esteja a ser castigada pela história do plágio. Gostei muito do Adeus, Princesa (1986), acho que foi um livro importante na altura. A comunicação deste novo livro (primeiro volume de uma trilogia) é bastante kitsch.








Ensina-me a Voar Sobre os Telhados

É o título do próximo romance de João Tordo, a lançar em Março de 2018 pela Companhia das Letras. Este lançamento leva a Visão a incluir o "prolífico" escritor (42 anos, dez romances publicados) na sua lista de 12 figuras nacionais para 2018 na área da cultura (Vamos ouvir falar deles, Visão, 28/12/2017). É o único escritor da lista.

João Pedro George

De rir à gargalhada, este livro. Reencontrei-o numa gaveta e estou a reler os textos, agora à luz da minha nova condição de estudante de Edição. É uma maravilha. Infelizmente, a crónica que queria partilhar não está disponível online, mas fica a dica. Chama-se 'Editoras e Publicidade'. 
«Há uma coisa no mundo editorial que sempre me fez confusão: a publicidade. Se repararem, a publicidade das editoras é de uma pobreza confrangedora. É inepta e incompetente. Comedida.» (p.78) E vai por aí fora. O texto tem 10 anos ou mais, já não será bem assim mas a graça e a ironia não se perderam.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O trabalho árduo de um editor




Comprei, há pouco tempo, uma compilação de short fiction de Virginia Woolf, A Haunted House: The Complete Shorter Fiction, da Vintage Classics e editado por Susan Dick. Achei, desde logo, interessante o facto de o nome da editora se encontrar na capa, visto ser uma das grandes académicas sobre Woolf. Ainda mais interessante foi o deparar-me com muito mais do que uma coletânea de textos.
O livro inicia-se com uma introdução de Helen Simpson, autora britânica, que faz uma curta análise de Virginia Woolf, o seu estilo, a sua bibliografia, faz comparações com outros autores e a relação de Woolf com as pequenas histórias e os romances. De seguida, a editora apresenta-nos a sua própria introdução, onde explica a seleção dos textos e outras escolhas que teve de fazer, como a ordem pela qual se encontram e o efeito que quis transmitir.
A editora descreve ainda os processos editoriais (Editorial Procedures) da compilação. Clarifica quais dos textos são reimpressões e quais são inéditos, explicando que obteve os rascunhos de Woolf e que o processo editorial passou por comparar os textos já publicados com os manuscritos da autora. Para além de mostrar alguns exemplos de diferenças entre ambos e as supostas revisões da autora, Susan Dick avisa o leitor de que existem manuscritos de Woolf que não foram revistos pela escritora, pelo que assim foram publicadas nesta coletânea. Fala também de compilações prévias dos textos de Woolf, nomeadamente a que foi publicada pelo marido, e assinala ainda as revisões que este também fazia nos manuscritos de Virginia Woolf e como, nestes casos, a editora escolheu apenas as revisões da escritora, dizendo terem mais autoridade.
Em termos linguísticos, Dick explica as mudanças que efetuou: adicionou aspas, vírgulas, apóstrofes, hífens e parêntesis onde achou apropriado, ou seja, onde não fazia parte do estilo de Woolf, corrigiu erros de impressão, não colocou passagens cortadas e escreveu por extenso abreviaturas e contrações. Em cada modificação da editora, esta coloca-a entre parêntesis retos, acompanhando-a de uma nota explicativa. No entanto, apesar das mudanças assinaladas, Susan Dick não mexeu na pontuação quando esta provoca qualquer efeito sobre a história. Todas estas alterações parecem-me ser apenas possíveis e concretizáveis por alguém que estude Virginia Woolf durante anos e saiba exatamente o que pertence ao seu estilo.
O livro contém ainda, no final – e isto é explicado também nos processos editoriais –, a presença de apêndices e notas para quem desejar estudar os manuscritos e revisões de Woolf, onde incorporou também elementos biográficos que a editora tenha encontrado relacionadas com cada história.
Esta coletânea é um daqueles exemplos de trabalho árduo e extensivo por parte dos editores que o fazem mais por gosto e dedicação ao seu trabalho do que por dinheiro (apesar de, provavelmente, Virginia Woolf ainda vender muito bem). 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Diogo Vaz Pinto, ainda os Cem Poemas


«Não vale a pena determo-nos aqui em miudezas. Para isso já Luís Miguel Queirós veio com o seu escalpelo mostrar as incoerências, fragilidades e gralhas, notando até que “a capa não faria má figura num prospecto da secção de frutas e legumes do Continente”. Mas não vai mais longe, e até a legitima. Além das diplomáticas três estrelas – isto para ninguém se chatear –, ajuda-a a atravessar a passadeira, dando-a como objecto digno de análise à lupa e faz-lhe o favor de não ver o que há nela de mais insinuante: o seu despudorado oportunismo comercial, a banalidade dos seus méritos, o vazio crítico de uma proposta que, dizendo recusar “cânones académicos e os espartilhos da notoriedade”, se auto-promove como “uma leitura incontida e luminosa do panorama poético português para fruir sem constrangimentos”, patati patatá. Sem constrangimentos!? No meio de tanto golpe publicitário é difícil perceber o que sobrevive a todos os constrangimentos com que esta antologia sufoca a poesia e, na verdade, o mais triste é dar-mo-nos conta de que toda uma geração se mostra tão dócil ao ponto de se deixar arregimentar nestes esquemas publicitários.»
Texto completo aqui.
JMS sobre a crítica de LMQ aqui.
A minha questão: é assim tão errado lançar um volume comercial, com um título evidentemente demagógico? Que mal tem se 'Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos' se vender bem, sobretudo entre os não-leitores de poesia? Não é melhor ler alguma poesia (e apesar de tudo com algum critério) do que poesia nenhuma?

Foi engano, o anúncio do exame.

Blog errado. Exame para licenciatura.